
Plataformas que possuem recursos de vídeos curtos se destacaram como os aplicativos mais utilizados por adolescentes entre 13 e 17 anos, e podem reduzir a capacidade de atenção e prejudicar o desempenho acadêmico
A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 revelou que, no ano de 2024, plataformas que possuem recursos de vídeos curtos, como TikTok, YouTube e Instagram, se destacaram como os aplicativos mais utilizados por adolescentes entre 13 e 17 anos. A pesquisa destaca, ainda, que a presença de adolescentes nesses ambientes digitais, marcada por conteúdos de rápida circulação e algoritmos de alta capacidade de personalização, apresenta grandes desafios para a sociedade: o tempo de exposição às telas, participação em jogos, trends e desafios virais, além de questões relacionadas à segurança, privacidade e tratamento de dados pessoais.
"As plataformas de vídeos rápidos são utilizadas pelos adolescentes como passatempo, atualização sobre as novidades, forma de socialização e até ferramenta de estudo. Porém, segundo a pesquisa, os jovens, de forma quase consensual, destacam que o formato gera hiperengajamento e vontade de assistir vídeos em sequência", explica Carolina Sperandio, diretora da Unidade Granja Vianna do Colégio Rio Branco.
Impacto das tecnologias na educação e na saúde dos jovens
Carolina descreve os smartphones como uma fonte inesgotável de estímulo. Ela cita Jonathan Haidt, em seu livro "A Geração Ansiosa", que aconselha não disponibilizar telefones celulares para crianças até os 14 anos de idade e proibir redes sociais até os 16. O autor indica quatro danos fundamentais causados pela gratificação instantânea: privação social, privação do sono, fragmentação da atenção e dependência.
A diretora também menciona a obra “A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças”, do neurocientista francês Michel Desmurget. Ele afirma que o "excesso de imagens, sons e solicitações diversas parece criar condições favoráveis ao surgimento de déficits de concentração, transtornos de aprendizagem, sintomas de hiperatividade e vícios”.
A fragmentação do processo atencional e a redução da capacidade de concentração em atividades mais longas e complexas são apontadas pela diretora como os principais impactos das tecnologias no meio educacional. “Isso compromete o desempenho acadêmico das crianças, tornando-as menos capazes de se envolverem em leituras densas, reflexão profunda e resolução de problemas”.
“Trends e desafios perigosos, design viciante, padrões de beleza inatingíveis, consumismo e status social, superexposição, desinformação e discurso de ódio estão sendo consumidos numa rolagem de tela que não tem fim”, destaca a diretora.
O papel da família e da escola para diminuir os prejuízos dos vídeos curtos
Soluções simples não resolvem problemas complexos, segundo Carolina. “É preciso persistência para ensinar as crianças e os adolescentes a usarem as diferentes tecnologias de forma responsável e equilibrada, aproveitando o melhor delas", destaca.
É preciso orientar os jovens para que desenvolvam autocontrole e criticidade em relação ao que consomem. “Família e escola desempenham papel fundamental no estabelecimento de limites e na promoção de discussões sobre os impactos negativos do uso excessivo de mídias digitais e da artificialidade das relações virtuais”.
Os pais podem fazer uso de recursos de controle parental para o gerenciamento de conteúdo e tempo de uso em diferentes faixas etárias, como Qustodio Parental Control, Google Family Link e Screen Time Parental Control. Ao mesmo tempo, ouvir o que os jovens têm a dizer é fundamental. “Entender o quê e o porquê aproxima pais e filhos e pode trazer aprendizado e fortalecer vínculos de confiança”.
Carolina cita algumas recomendações do psicólogo Cristiano Nabuco, PhD em psicologia clínica de dependências tecnológicas, aos pais:
- Criar zonas livres de tecnologia ou desafios de detox digital: estabelecer ambientes ou períodos em que o celular não pode ser usado, como em uma viagem ou durante o almoço e jantar;
- Mostrar que a vida offline também é boa: estimular os filhos a fazerem atividades ao ar livre ou praticar esportes pode ser uma tática para afastá-los das telas por um período do dia;
- Curtir o ócio: ensiná-los que é importante ter momentos à toa, sem as notificações do celular. A pausa – real e digital – descansa a mente, estimula a criatividade e o desenvolvimento do cérebro;
- Dar o exemplo: crianças que veem os pais usando o celular o tempo todo estão mais propensas a repetir esse comportamento.