Falar em aprendizagem é, muitas vezes, pensar em conteúdos, estratégias, métodos e resultados. Mas há algo mais profundo e essencial que a sustenta: a dimensão afetiva. Segundo Ana Claudia Crivelaro, orientadora educacional da Unidade Higienópolis do Colégio Rio Branco, não bastam conhecimentos, técnicas e teorias se a afetividade não estiver presente nas relações, sejam elas na sala de aula, no trabalho ou na vida.
“Quando uma criança ou um adulto sente-se acolhido, respeitado e valorizado, seu cérebro abre espaço para a curiosidade, a motivação e a criatividade, ou seja, espaço para a aprendizagem. Sem afeto, o aprender se torna mecânico e, muitas vezes, sem perspectiva”, afirma.
Ela acrescenta que trabalhar a afetividade não é um adorno pedagógico, mas uma necessidade formativa. “Pesquisas, práticas e a própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apontam que as emoções influenciam diretamente no desenvolvimento cognitivo, no engajamento e numa aprendizagem de qualidade.”
Círculo virtuoso
Ana Claudia explica também a relação entre afeto, autoestima e aprendizagem. Uma pessoa com a autoestima saudável acredita em sua capacidade de aprender, de tentar novamente e de superar desafios, mostrando ser resiliente. Por outro lado, quem se sente desvalorizado e não acolhido tende a desistir antes mesmo de tentar.
“Educar e aprender vão muito além de transmitir informações. Envolvem as relações humanas que são pautadas pelo afeto e carinho. Um olhar mais carinhoso do professor, um colega que ouve e um ambiente que acolhe contribuem para aquisição da confiança necessária para que o conhecimento aconteça. Aprender é um ato profundamente humano, e ser humano é sentir”, destaca a orientadora.
De acordo com ela, quando reconhecemos que a afetividade, a autoestima e a aprendizagem formam um círculo virtuoso, entendemos que educar é também cuidar do emocional. "É permitir que o outro descubra não apenas o mundo, mas também a si mesmo com amor, coragem e confiança.”
Autoconhecimento e valorização
A orientadora reforça que vínculos positivos com professores, colegas e com a própria família tornam o aprendizado uma experiência viva. “A criança passa a se ver refletida nas relações que constrói, no respeito que recebe, na escuta que encontra e no carinho que percebe.”
Esses vínculos alimentam o autoconhecimento e fortalecem a autoestima, pois a criança sente que ela tem valor, que suas ideias importam e que o erro não é sinônimo de fracasso, e sim de aprendizagem. “Em uma escola acolhedora, o afeto não é um detalhe, mas um alicerce que fará da escola um ambiente onde o emocional e o pedagógico caminham juntos”, completa.
Assim, a escola pode e deve proporcionar afetividade não somente com abraços e palavras gentis, mas com posturas, escutas e gestos que dizem “você é importante para nós”. Para a educadora, quando a escola se torna um lugar de confiança e vínculos, o aprendizado se torna significativo e ela cumpre com sua missão: formar cidadãos éticos, competentes e solidários.
Ela dá exemplos de como a escola pode proporcionar afetividade por meio de ações simples, como:
- valorizar o que cada criança tem de único;
- estimular o diálogo e a empatia;
- criar um ambiente de respeito e cooperação;
- cuidar das emoções com escuta e acolhimento;
- celebrar conquistas, por menores que sejam.
Formação integral e Projeto Convivência
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) coloca no centro do processo educativo a formação integral, articulando as dimensões cognitivas, sociais e emocionais ao trabalhar competências como autoconhecimento, empatia, responsabilidade, cooperação, pensamento crítico e resolução de conflitos.
O Projeto Convivência do Colégio Rio Branco dialoga diretamente com essas competências ao oferecer momentos, práticas e experiências que fortalecem habilidades socioemocionais essenciais para a vida.
“É na convivência que as crianças aprendem a ser, a sentir, a respeitar e a construir o mundo que desejam habitar. O projeto reafirma que a escola é um espaço de formação integral. Cada atividade, cada conversa, cada dinâmica faz com que o aluno perceba que aprender também significa se conhecer, se cuidar e aprender a conviver”, salienta Ana Claudia. “São rodas de conversa, dinâmicas de grupo, relato de experiências que, durante o ano, são discutidos em forma de assembleias para envolvimento dos alunos e como oportunidade de formação para a vida”, exemplifica.
Ela diz que o projeto tem como premissa formar pessoas que saibam sentir, pensar e agir com ética e humanidade. “Ou seja, pessoas resilientes diante dos desafios, conscientes de seus papéis na sociedade e capazes de construir relações saudáveis ao longo da vida”, detalha a educadora.
A proposta também se ancora nos quatro pilares da educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que servem como guia para construir uma educação mais humana e significativa: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a conhecer.
“Ao integrar esses pilares à rotina escolar, o projeto ajuda os estudantes a compreenderem a si mesmos e ao mundo, não apenas como espectadores, mas como cidadãos capazes de transformar a realidade. No fim das contas fica a reflexão: o conhecimento nos ensina a viver, mas é o amor que dá sentido à vida.
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