
Manter um canal de diálogo para ouvir sobre os interesses, dúvidas, valores e prioridades dos jovens é o maior apoio que as famílias podem oferecer
A escolha profissional é uma etapa muito desafiadora na vida dos estudantes. Ela representa, em geral, a primeira grande decisão que eles tomarão em sua vida, com impactos em vários aspectos do seu futuro. Devido à importância dessa escolha, é esperado que os adolescentes tenham dúvidas, revejam a sua rota e ensaiem possibilidades. E tudo isso ocorre em um momento delicado, em que estão em processo de desenvolvimento, construção da identidade e maturação cerebral.
Rodrigo Castro, coordenador pedagógico dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio do Colégio Rio Branco, lembra que, junto a esse processo, existem ainda as pressões externas, como o momento do vestibular, a transição do ensino médio para o superior, as exigências e expectativas das famílias, a autocobrança e o medo de fracassar.
Segundo ele, também é preciso considerar que vivemos a era da informação, em que somos bombardeados diariamente e a todo momento pelas mais diversas informações. “Há uma espécie de sobrecarga de dados na mente dos jovens, tornando ainda mais complexas as tomadas de decisão.”
O que considerar na escolha
Alguns critérios, no entanto, podem ajudar nesse processo. Rodrigo diz que aquilo que desperta prazer ou afinidade no jovem é um caminho para o que pode lhe trazer maior satisfação em realizar. “Na mesma linha, áreas do conhecimento em que o adolescente transita com maior facilidade podem ser um indicativo”, aponta. “Fala-se muito também do encontrar o seu propósito. Buscar algo que esteja alinhado aos valores pessoais e familiares auxilia a escolha”.
Analisar o contexto da carreira ou das carreiras pretendidas no mercado de trabalho e a oferta de emprego ou oportunidades de empreender é outro fator importante. Também vale pesquisar sobre as chances reais de se desenvolver na profissão e quais os desafios a serem superados.
O coordenador também indica compreender a dinâmica das vagas ofertadas pelas universidades, conhecer o programa do curso pretendido e verificar as possibilidades de bolsas, pesquisas e intercâmbio.
Por fim, o jovem deve entender que nenhuma escolha neste momento precisa ser determinista. “Mudar a rota no meio do caminho sempre poderá ser uma possibilidade. O processo seria o mesmo de reflexão e análise, com a tranquilidade de considerar que rever escolhas não é perda de tempo. Toda experiência é válida na sua constituição enquanto sujeito”, afirma Rodrigo.
O papel da família
Os pais são peças-chave nesse processo. Mas, em vez de fazer julgamentos ou afirmações como “siga nesta carreira”, o coordenador recomenda abrir espaço para o diálogo por meio de perguntas norteadoras, que abordem os interesses, as dúvidas, os valores e as prioridades do filho. Por exemplo: “o que te preocupa se for a escolha ‘x’?”; “o que te empolga nessa outra possibilidade?”.
Como as dúvidas nessa fase fazem parte da construção da identidade, a escuta será o maior apoio que o jovem poderá receber. “Isso reduzirá a pressão e a possível vergonha por estar em dúvida ou por não saber ao certo o que quer fazer”, considera Rodrigo. “Esta abordagem também ajudará o jovem a ter maior autonomia e protagonismo em suas escolhas e ver seus pais como verdadeiros parceiros nesse processo.”
As famílias também podem ajudar os filhos de forma tangível. Escrever em um painel as possibilidades de carreira, analisar os prós e contras na visão do filho para cada escolha e dividir esse ‘grande problema’ em partes menores são alguns exemplos. Outras atividades que os pais podem apoiar são buscar referências ao visitar as universidades desejadas, conversar com especialistas nas carreiras pretendidas, visitar empresas que trabalham no ramo e participar de projetos voluntários. Além dessas iniciativas, o coordenador cita e comenta outras:
- Promover momentos de descompressão, como uma pausa para irem juntos ao cinema, ao parque, visitar uma exposição ou ir a uma peça de teatro. Além de descontrair um pouco em família, essas atividades abrem as portas para outras formas de ampliação do repertório cultural.
- Ajudar a estabelecer uma rotina de sono e alimentação saudáveis, incentivando atividades físicas e buscando, assim, o equilíbrio entre corpo e mente.
- Organizar um calendário com todos os compromissos, datas e prazos que terão pela frente, como os dias de prova de cada uma das fases dos vestibulares, os compromissos escolares, simulados, eventos familiares etc. Assim, o jovem tem a possibilidade de se antecipar e organizar a sua rotina temporalmente, diminuindo a ansiedade.
“Os pais não decidirão os caminhos pelos filhos, mas serão fundamentais como parceiros nas reflexões. Sabemos que esta etapa é angustiante para todos e, muitas vezes, a família não quer que o filho se frustre ou faça uma escolha ‘errada’. Mas não há escolha errada nesse processo”, destaca Rodrigo. “Cada experiência ajudará na construção da identidade do jovem e, se for preciso recalcular a rota, tudo bem. O apoio nos momentos de reflexão e de decisão farão a diferença para a segurança do próximo passo.”
Leia também: