Manter um diário, escrever poesias ou se expressar livremente ajudam a lidar com as emoções, construir a identidade e fortalecer a autoestima
Mais do que um instrumento, a escrita pode ser uma poderosa aliada no processo de autoconhecimento de crianças e jovens. Principalmente na adolescência, entender quem somos ganha ainda mais importância, pois está diretamente ligado à autoestima e à construção de relacionamentos, que são aspectos fundamentais nessa fase da vida.
“Nesse contexto, a escrita se mostra uma ferramenta poderosa, pois permite elaborar emoções e sentimentos que muitas vezes não têm nome ou espaço para serem expressos, mas que podem ser externalizados por meio das palavras”, explica Danielle Ojima, professora de Língua Portuguesa do Colégio Rio Branco. “Escrever ajuda a dar forma e significado ao que acontece internamente, tornando o autoconhecimento mais acessível e palpável.”
Ela acrescenta que crianças e adolescentes que caminham em direção ao autoconhecimento, de modo geral, conseguem gerenciar melhor suas emoções, tomar decisões mais conscientes e enfrentar com mais resiliência os desafios típicos dessa etapa.
Diferentes formas de registros
Há uma diversidade de formas de escrita que podem ser utilizadas para estimular o autoconhecimento, oferecendo espaços seguros para que crianças e adolescentes possam explorar seus pensamentos, emoções e experiências sem o peso do julgamento ou da correção imediata.
A escolha pode variar de acordo com o perfil, interesses e necessidades de cada pessoa. Danielle indica e comenta algumas opções:
- Escrita criativa: permite inventar histórias, personagens e situações, o que pode funcionar como uma forma simbólica de refletir sobre os próprios sentimentos e conflitos internos.
- Diário: ajuda a organizar emoções e pensamentos do dia a dia, possibilitando uma reflexão constante sobre as vivências.
- Expressões livres: dão liberdade total para que as crianças e os adolescentes se manifestem espontaneamente, o que favorece a conexão com o que realmente sentem.
- Cartas: sejam imaginárias ou reais, elas facilitam colocar em palavras aquilo que está guardado ou difícil de dizer pessoalmente.
- Poesia: com sua linguagem sensível e simbólica, permite a exploração profunda de emoções complexas.
- História em quadrinhos: ao combinar imagens e texto, oferece uma maneira lúdica e visual de expressar narrativas pessoais e sentimentos, tornando o processo ainda mais acessível e criativo para muitos jovens.
Desenhos e outras possibilidades para crianças mais novas
Além dessas alternativas, Danielle menciona também os desenhos, pinturas e colagens, especialmente para crianças menores. Isso porque, nessa fase, a linguagem escrita ainda está em desenvolvimento, e o desenho pode ser uma forma mais acessível de expressar o que sentem e pensam.
“Os desenhos revelam aspectos profundos do mundo interior da criança. A escolha das cores, por exemplo, não é aleatória. A psicologia infantil atua observando essas escolhas como uma forma simbólica de comunicação que está diretamente ligada às emoções das crianças”, diz.
Essas atividades não só auxiliam no autoconhecimento, mas também se tornam um canal importante para que adultos, educadores e profissionais da saúde possam apoiar as crianças de forma mais sensível e eficaz.
Os benefícios de expressar-se
A prática da escrita traz inúmeros benefícios para crianças e adolescentes. Um dos principais ganhos é a possibilidade de lidar melhor com as emoções. “Ao colocarem no papel aquilo que sentem, eles conseguem dar nome e sentido a sentimentos que, muitas vezes, são confusos ou difíceis de entender. Isso ajuda a reduzir a ansiedade, o estresse e a angústia, promovendo um maior equilíbrio emocional”, considera Danielle.
Além disso, a escrita contribui para a construção da identidade. Por meio dela, crianças e adolescentes podem explorar suas histórias, valores, desejos e desafios, refletindo sobre quem são e quem querem ser. “Essa reflexão contínua é fundamental para o desenvolvimento de um senso mais claro de si mesmos”, destaca a professora.
Outro aspecto importante é o fortalecimento da autoestima. Ao reconhecer e valorizar suas experiências, conquistas e até dificuldades, eles se percebem como sujeitos capazes e únicos, o que aumenta a confiança para enfrentar os desafios da vida e lidar com a frustração.
A escrita estimula também o pensamento crítico e a criatividade, habilidades essenciais para o crescimento pessoal e acadêmico. E favorece ainda a comunicação, já que o ato de organizar ideias no papel melhora a capacidade de se expressar, tanto na fala quanto na escrita.
“No TEDEd, programa pelo qual sou responsável na unidade da Granja Vianna, atuo ajudando jovens do Ensino Fundamental II a elaborarem uma palestra sobre um assunto pelo qual são apaixonados. Antes de falarem, os alunos precisam escrever o roteiro da fala e pensar sobre o que querem dizer e como devem fazer isso”, exemplifica a educadora.
Escola e família como incentivadoras da escrita
A escola e a família têm um papel fundamental para estimular a escrita como ferramenta de autoconhecimento, criando ambientes e práticas que valorizem a expressão pessoal e emocional das crianças e adolescentes.
No Rio Branco, especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental, são propostas atividades como a escrita de diários de leitura. Os alunos escrevem sobre o que leram, ajudando-os a refletir e compreender melhor seus sentimentos e percepções diante da leitura.
Outra atividade é a autobiografia criativa, gênero trabalhado também nos anos finais do Fundamental. Os alunos criam histórias sobre suas vidas, destacando conquistas e desafios, fortalecendo a construção da identidade.
“Além disso, no programa do TEDEd, por exemplo, trabalho regularmente com exercícios que envolvem valores e sonhos, fazendo perguntas como “O que te faz feliz?” ou “Como você gostaria de ajudar os outros?”. Isso incentiva uma reflexão profunda sobre identidade e futuro”, complementa Danielle.
Na família, o incentivo pode começar com hábitos simples, como dialogar sobre o que aconteceu no dia, ouvir atentamente e apoiar a escrita ou o desenho de sentimentos e experiências, valorizando a autenticidade e a criatividade, sem pressões.
“Quando escola e família trabalham juntas para criar esses espaços de expressão, a escrita e outras formas de manifestação tornam-se poderosas ferramentas para que crianças e adolescentes desenvolvam autoconhecimento, autoestima e equilíbrio emocional”, afirma Danielle.
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