
Ferramentas de IA podem ser boas aliadas na organização das crianças e no desenvolvimento da autonomia, se usadas com consciência e equilíbrio
Quando as ferramentas de inteligência artificial (IA) se popularizaram, elas passaram a ser vistas como uma fonte de respostas prontas e rápidas, e houve uma tendência de evitá-las no contexto escolar. Mas, se usadas de forma crítica e responsável, elas podem ser grandes aliadas no estudo.
“A IA não se resume à Chat GPT e bots de autoatendimento. Há agendas integradas com assistentes virtuais, que podem ajudar os estudantes a organizarem sua rotina com lembretes e checklist de tarefas de casa e estudos para provas”, exemplifica Jorge Farias, professor de tecnologia educacional do Colégio Rio Branco.
Ele acrescenta que, na hora do estudo, as pesquisas em chatbots podem ser personalizadas, adaptando a linguagem e o nível da explicação de acordo com a idade e a necessidade do estudante. “Outra vantagem interessante é revisar o conteúdo aprendido sozinho, com a IA corrigindo e aplicando feedbacks e sugestões de caminhos para aprender mais.”
O professor também lembra que, nesse processo de uso orientado da IA, algumas habilidades podem ser desenvolvidas, como:
- organização e autogestão: ao trabalhar com prazos para tarefas e estudos e aprender a administrar o tempo;
- autonomia: quando o estudante pesquisa e busca respostas sozinho;
- curiosidade: ao ir além do conteúdo estudado;
- pensamento crítico: ao validar cada conteúdo apresentado;
- responsabilidade digital: quando usa a IA de forma ética e segura.
Pontos de atenção
Mas o uso da IA também exige certos cuidados. Os estudantes podem usar telas mais tempo do que o necessário para estudar, por exemplo. “É preciso equilibrar esse tempo, evitando que percam o foco ao entrar em sites e aplicativos não necessários para a aprendizagem. E incentivar a prática de atividades físicas para descansar e melhorar o bem-estar físico e mental”, indica Jorge.
Um grande desafio é não depender de respostas prontas. “Parece tentador perguntar diretamente a um chatbot as questões cujo assunto não dominamos. Mas fazer isso vai atrapalhar o processo de aprendizagem e o desenvolvimento de competências como responsabilidade e ética”, considera o educador. “A IA deve ser usada como uma ferramenta que mostra o caminho, não uma substituta do esforço do estudante.”
Além disso, a IA é um mecanismo virtual em constante aprimoramento e sempre terá erros. “Por isso, é muito importante que as famílias incentivem seus filhos a questionarem e validarem -- em fontes confiáveis, como enciclopédias e livros didáticos -- cada informação gerada. Perguntas como ‘qual a fonte dessa informação?’, ‘há sentido nessa resposta?’ e ‘o que outras fontes dizem?’ ajudam na verificação”, sugere.
4 formas de usar a IA para apoiar as tarefas escolares
Para ajudar os pais a incorporarem ferramentas de IA no apoio às tarefas escolares, com foco na promoção da autonomia, organização e aprendizagem mais dinâmica de seus filhos, Jorge dá algumas dicas:
- Criação de lembretes automáticos
Crie lembretes com horários para realizar tarefas e estudos para provas, em assistentes virtuais, como Alexa da Amazon, Siri da Apple ou Google Assistente, que podem ativar dispositivos integrados e notificações no celular. Se inserido na rotina, os estudantes podem fazer o ritual de agendamento sozinhos, desenvolvendo a autonomia.
- Organização de planos de estudo
Os estudantes podem digitar tarefas grandes e complexas, uma lista com muitas tarefas ou um conteúdo específico de prova em um chatbot, como o Gemini da Google ou ChatGPT da OpenAI. E, na sequência, pedir que monte um plano de estudo, diário ou com prazo específico. “Isso desenvolve a organização e a autogestão”, diz o professor.
- Explicações adaptadas
Outra possibilidade é ensinar os filhos a criarem prompts que peçam para o chatbot explicar, de forma simples, o conteúdo a ser estudado, pedindo exemplos práticos, considerando a idade, série e componente curricular.
Jorge cita alguns exemplos: “Tenho 13 anos, curso o 8º ano e, em Matemática, dê um exemplo de aplicação de equação no cotidiano”. Ou "explique a fotossíntese como se eu tivesse 10 anos". Ou, ainda, "faço a 2ª série do Ensino Médio. Crie 3 problemas de análise combinatória com aplicação para um jovem de 16 anos".
“Oriente os estudantes a não copiarem exatamente a questão da tarefa, pois isso impediria passar pelo processo de aprendizagem, que ativa as habilidades cognitivas e internaliza o conteúdo”, aconselha o professor.
4: Geração de testes e mapas mentais
Monte junto com seu filho um resumo sobre o conteúdo estudado, um quiz ou um mapa mental. É semelhante aos cartões de estudos, ou flashcards, com a vantagem de receber feedback e sugestões de melhoria instantaneamente.
Basta digitar, no mesmo chat usado para a pesquisa, um prompt simples, como “crie um resumo/quiz/mapa mental sobre esse assunto”. “Incentive-os a utilizarem este método, principalmente em época de provas. Esta dica, junto à dica 3, estimula uma aprendizagem mais dinâmica”, destaca Jorge.
Revisão crítica e parceria de estudos
Após o estudo com IA, o professor recomenda que os pais peçam para que a criança ou o adolescente explique de forma espontânea o que aprendeu. “Estimule-os a manterem esse hábito, sozinhos e com colegas de estudo. Isso ajuda para que não se tornem dependentes da IA e aprendam o conteúdo de forma eficaz.”
Outra dica do educador para os pais é serem parceiros de estudo e não apenas cobradores de tarefas. “Isso cria oportunidades para conversarem sobre o uso eficiente e ético da IA para aprender, além de qualificar o tempo de convivência.”
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