Como se preparar para a primeira fase dos vestibulares?

É importante se planejar com antecedência, estudar de modo ativo, revisar conteúdos, realizar simulados e treinar redação. Cuidados com a alimentação, o sono e a saúde física e mental também são essenciais

A preparação para os vestibulares e para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) representa um período de intensa dedicação, exigindo dos estudantes meses de muitas leituras, resolução de exercícios, aulas e simulados. E, com a aproximação das datas das provas da primeira fase -- Unicamp, em 26 de outubro; Unesp, em 2 novembro; Enem, em 9 e 16 de novembro; e Fuvest, em 23 de novembro, aumenta a pressão por um bom desempenho

Caroline Marques Fukai, orientadora educacional do Ensino Médio do Colégio Rio Branco e especialista em neuropsicopedagogia, explica a importância de se preparar com antecedência e considerar outros aspectos, além do estudo em si. “A preparação para processos avaliativos como esses deve ser feita de forma ativa e não deixada para a véspera das provas, devido à forma como o cérebro processa e consolida as informações”, aponta.

Como favorecer a aprendizagem duradoura

Segundo a especialista, a principal razão para a ineficácia do estudo de última hora, conhecido popularmente como "decoreba", está na diferença entre os tipos de memória e os mecanismos cerebrais de aprendizagem duradoura. “O cérebro não nasce pronto, mas é maleável e se modifica continuamente por meio das experiências e aprendizagens. Temos bilhões de neurônios à nossa disposição, mas é a qualidade da nossa preparação que impacta o funcionamento cerebral.”

A aprendizagem duradoura, essencial para avaliações, depende da consolidação de informações na memória de longa duração. “A aprendizagem ocorre através da reorganização de sinapses, circuitos e redes de neurônios em todo o cérebro. Ou seja, a comunicação entre os neurônios trará sentido para o que se aprende e fortalecerá a memória de longo prazo”, detalha Caroline. 

Assim, para que uma informação seja registrada de forma mais definitiva, ela precisa passar por processos de repetição, elaboração e recordação. “Isso significa que a informação deve ser ‘repetida de formas diferenciadas’, e o estudante deve estabelecer associações com as informações que já tem arquivadas”, afirma.

Estes processos de repetição e elaboração exigem tempo para que o cérebro ative repetidamente os circuitos neurais envolvidos com a informação, fortalecendo as sinapses e criando uma rede de memória mais robusta.

O que considerar na preparação: dicas de estudo

Para um estudo mais eficaz, Caroline lista 6 pontos que devem ser levados em conta: 

 

  • Aprendizagem ativa

 

Ela indica priorizar metodologias em que o aluno esteja no centro do processo, engajando-se cognitiva e emocionalmente. “O cérebro humano é social, e a interação favorece a aprendizagem. A aprendizagem colaborativa e o diálogo entre colegas podem impulsionar as conexões e otimizar o estudo. Grupos de estudos e trocas entre alunos são exemplos eficazes de aprendizagem ativa.”

 

  • Repetição diversificada, elaboração e recordação

 

A repetição deve ser feita de diferentes formas, expondo o conteúdo sob diversos formatos, como escutar, escrever, ver vídeos, ler, discutir e elaborar mapas mentais.

 

  • Realização de simulados e provas de edições anteriores

 

Caroline diz que estudar fazendo simulados ao longo de todo o ano de preparação é uma das estratégias mais importantes, pois ajuda a testar o conhecimento, lidar com a pressão, administrar o tempo e reduzir a ansiedade. “Cronometre aproximadamente três minutos por questão para se acostumar com o tempo de prova. Após o simulado, analise os erros para entender se foram por ansiedade, falta de controle do tempo, distração ou falta de conhecimento. Isso desenvolve o seu autoconhecimento e deixa cada vez mais natural a rotina, diminuindo o desconforto e a dificuldade na hora da prova”, pontua.

 

  • Foco total

 

Outra recomendação é evitar ser multitarefa. “O cérebro não consegue processar dois estímulos simultaneamente com eficiência. Ele alterna a atenção entre eles, resultando em perda de informação e comprometimento da memória de trabalho”, salienta a orientadora. Neste sentido, dispositivos eletrônicos, principalmente o celular, aparecem como os principais distratores dos estudantes hoje em dia. Assim, criar o hábito de desligar o aparelho durante o período de estudos é fundamental. Alternar os recursos tecnológicos (como vídeos e plataformas digitais) e os convencionais (como livros, cadernos e resumos) pode ser uma excelente estratégia.

 

 

Um bom plano de estudos deve ser realista e alinhado ao perfil e à realidade de cada estudante. Isso inclui analisar quantas horas podem ser dedicadas ao estudo por dia – o recomendado é de 4 a 6 horas. Também é fundamental considerar a carreira que se deseja seguir, pois a estratégia de estudo pode mudar dependendo dessa escolha. “É essencial consultar o edital da universidade para ver o que merece mais atenção, dando ênfase às disciplinas que têm maior peso para o curso escolhido”, comenta Caroline.

“As revisões devem ser feitas periodicamente, observando as prioridades, que são as matérias e questões em que se tem mais dificuldade e que têm maior chance de cair na prova. O que o aluno já domina pode ser revisado posteriormente”, completa.

 

  • Atenção à redação dissertativa-argumentativa

A redação é uma das etapas mais importantes e temidas do vestibular. Por isso, o cronograma de estudos deve prever a produção periódica de textos, preferencialmente, a elaboração de uma redação por semana. É importante buscar uma ferramenta de correção ou contar com professores especialistas para destacar os pontos de melhorias e eventuais equívocos nos textos. “A retomada e a reescrita ajudam a aperfeiçoar o pensamento e se aproximar cada vez mais da produção ideal. Além disso, a leitura de temas variados e de atualidades torna-se aliada importante para a aquisição de um rico repertório que vai embasar a redação”, ressalta a especialista. 

Preparação para além dos conteúdos

Além de orientações para potencializar o estudo, Caroline indica cuidar também de outros aspectos para completar a preparação. Confira:

  • Qualidade do sono: dormir bem é fundamental para a consolidação da memória e a reorganização das ideias. Durante o sono, o cérebro reorganiza novas conexões, formando novas memórias e fortalecendo as mais importantes para o dia a dia. O período de sono ideal varia entre 7 e 9 horas por dia. 
  • Alimentação adequada: é essencial para fornecer os nutrientes necessários às reações químicas e processos cerebrais importantes para a construção e consolidação das memórias e da aprendizagem. Bons hábitos alimentares incluem priorizar alimentos naturais e evitar os processados. 
  • Prática de atividades físicas: O movimento e as experiências multissensoriais ativam diversas regiões cerebrais, melhorando a atenção, as funções executivas e promovendo a saúde do cérebro. A prática regular de exercícios é o ideal para manter essa condição ativada. Mas também vale fazer pausas entre os períodos de estudo para caminhadas curtas, alongamentos ou outras práticas de fácil realização, como dançar ou pular cordas. 

Além desses fatores, a especialista destaca o papel das emoções e da motivação, que são interdependentes da cognição e orientam a aprendizagem. “É completamente normal, nessa fase, aparecer sentimentos diferentes e novos diante de algum conteúdo mais difícil ou de uma semana mais intensa de afazeres. Emoções negativas, como estresse e ansiedade, podem prejudicar a atenção, a memória e as funções executivas”. 

Ela sugere manter a interação com os amigos e garantir momentos de lazer ao final de uma semana intensa de dedicação, pois são fundamentais para a manutenção da saúde mental e emocional. “O cérebro precisa de momentos de repouso e lazer para realizar uma ‘higiene mental’ e retornar renovado para as tarefas”, afirma. A orientadora também recomenda apoio terapêutico se alguns desses sentimentos demoram a cessar ou aparecem com mais frequência. 

Orientações para a véspera e dia de prova

Na véspera e no dia da prova, Caroline lembra que não é indicado estudar. No dia anterior, ela propõe separar os documentos e materiais e escolher roupas confortáveis. Também é importante conferir o endereço da prova e calcular o trajeto, considerando a possibilidade de chuva e o trânsito. Ela sugere ainda ir dormir cedo, ler um livro ou ouvir música para relaxar.

No dia do exame, é bom acordar cedo para se preparar com calma, separar um lanche e água e sair com antecedência. Se a ansiedade aparecer, ela aconselha o uso de técnicas de respiração, como a respiração quadrada [inspiração, pausa, expiração e pausa, sempre em 4 segundos] que promove o relaxamento. “Lembre-se de que você se preparou por um longo período. Confie no seu potencial e pense positivo, pois isso ajuda a manter a calma e o equilíbrio na hora do exame”, finaliza Caroline.

 

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