
As férias escolares são um período propício para fortalecer os laços familiares e estimular as crianças e os adolescentes a viverem o mundo “real”. Com o aumento do uso de telas, que se intensificou após a pandemia, muitos jovens passam quase mais tempo conectados do que vivendo experiências importantes para o seu desenvolvimento.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), mais da metade dos usuários de internet de 9 a 17 anos acessam plataformas de mensagens e de compartilhamento de vídeos e fotos, como Whatsapp (70%), YouTube (66%), Instagram (60%) e TikTok (50%). Se considerada a frequência de “várias vezes ao dia”, essas proporções atingem 53%, 43%, 45% e 37%, respectivamente.
Para Simone Costa, coordenadora pedagógica da Educação Infantil e Ensino Fundamental Anos Iniciais do Colégio Rio Branco, as férias escolares são uma oportunidade valiosa para pais e responsáveis se reconectarem emocionalmente com seus filhos. Isso porque o desenvolvimento das crianças acontece principalmente nas interações sociais. “Quando adultos compartilham tempo de qualidade, brincadeiras e conversas com as crianças, fortalecem vínculos, geram segurança emocional e contribuem para o amadurecimento afetivo”, diz.
Importância de aproveitar as férias escolares
Segundo a coordenadora pedagógica, o tempo livre permite que a criatividade floresça. A ausência de tarefas escolares pode abrir espaço para que a criança experimente novas formas de brincar, imaginar e criar, que são competências essenciais para a vida.
Ela menciona o pedagogo italiano Loris Malaguzzi, da abordagem Reggio Emilia [que coloca a criança como protagonista do seu próprio aprendizado], que fala sobre a criança ter “cem linguagens” e todas merecerem ser exploradas. “Oferecer experiências como acampamentos, passeios, projetos manuais ou culinários também fortalece a memória afetiva, uma base para a construção da autoestima e das relações futuras”, aponta.
Mesmo propostas simples que não geram grandes investimentos financeiros podem ser ricas em experiências. “Fazer gostosuras com a vovó, sentir o aroma de um bolo gostoso e organizar a mesa para o café. Essas são práticas que as crianças guardam na memória”, exemplifica.
Descanso das telas
Simone acredita que as férias devem ser uma oportunidade para as crianças recuperarem o contato com o corpo, com os afetos e com o mundo real. Por isso, é importante controlar o uso de telas, lembrando que a utilização em excesso traz diversos riscos ao desenvolvimento físico, emocional e social dos pequenos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, o tempo de tela excessivo está relacionado a distúrbios de sono, obesidade, déficit de atenção, irritabilidade e dificuldades de socialização.
“O conhecimento se constrói a partir da ação sobre o mundo. Assim, quando a criança passa horas em frente a uma tela, ela deixa de experimentar, explorar e interagir com o ambiente real, o que empobrece seu repertório e limita o seu desenvolvimento”, destaca. “O isolamento digital pode também prejudicar a empatia, já que habilidades socioemocionais são cultivadas em interações humanas reais, não virtuais.”
6 dicas de como reduzir o tempo de tela
Para equilibrar o uso da tecnologia com experiências mais ricas e afetivas, a coordenadora pedagógica sugere seis estratégias aos pais e comenta cada uma delas:
1- Estabeleça limites claros de tempo de tela
Organizar uma rotina leve, que inclua tempo para leitura, brincadeiras e descanso, ajuda a reduzir a dependência de tela. As crianças se beneficiam de limites consistentes, que ensinam a autorregulação e o equilíbrio. O papel do adulto é ensinar o uso responsável da liberdade.
2- Crie projetos em família
Montar uma horta, fazer um livro de receitas ou construir brinquedos com materiais recicláveis. Essas atividades desenvolvem habilidades práticas, promovem o trabalho em equipe e geram sentimento de realização.
3- Organize noites temáticas
Promover uma noite com contação de histórias, jogos de tabuleiro ou de filmes escolhidos em conjunto fortalece vínculos e transforma o entretenimento em interação.
4- Convide amigos e familiares para brincadeiras presenciais
Criar momentos para interações sociais com outras crianças é essencial. O jogo simbólico e as brincadeiras livres favorecem a empatia, a linguagem e a resolução de conflitos.
5- Estimule brincadeiras ao ar livre
Segundo Piaget, o desenvolvimento cognitivo da criança está profundamente ligado à experiência sensorial e ao movimento. Natureza, espaço aberto e jogos físicos promovem a saúde e a criatividade.
6- Ofereça escolhas
Dar autonomia é empoderador. Ao permitir que a criança escolha atividades como pintar, jogar um jogo de tabuleiro ou ir ao parque, os pais a envolvem no processo e reduzem a resistência ao afastamento das telas.
“Os adultos são modelo. Se os pais também estiverem desconectados durante os momentos em família, a criança entenderá que esse comportamento tem valor. A coerência entre discurso e prática é essencial”, finaliza.
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