
Podemos definir saúde social como a capacidade de uma pessoa desenvolver relações interpessoais significativas e funcionais que lhe possibilitam atuar de maneira ativa e positiva em uma comunidade, além de contribuir para o seu próprio bem-estar.
Uma boa saúde social envolve diferentes competências, como capacidade de comunicação, habilidade de estabelecer e manter vínculos com outras pessoas, possibilidade de resolver conflitos de forma assertiva e sentimento de “fazer parte de um todo". Essas habilidades compreendem cooperação e suporte mútuo, fatores fundamentais para o desenvolvimento de sociedades saudáveis e sustentáveis.
“Hoje, quando pensamos em saúde, reconhecemos o papel de três pilares essenciais: bons hábitos de sono, uma alimentação balanceada e a prática de atividades físicas. Contudo, sabemos que o ser humano é um sujeito social e a socialização, atrelada a sensação de pertencimento que ela produz, encontra-se entre os fatores essenciais para uma boa saúde. A saúde social refere-se a essa esfera”, destaca Juliana Gois, orientadora educacional de apoio à aprendizagem da Unidade Higienópolis do Colégio Rio Branco.
Importância da saúde social no desenvolvimento das crianças
Juliana explica que o desenvolvimento da saúde social se dá em diferentes âmbitos e nas diversas fases da vida. Na primeira infância, entre dois e três anos de idade, começam as brincadeiras de “faz de conta”. Elas ficam cada vez mais complexas até que, aos quatro ou cinco anos, passam a ser compartilhadas com os pares. “Nessa fase, as crianças formam os primeiros vínculos sociais, que se tornam cada vez mais significativos com o tempo”, ressalta.
Quando as crianças passam a compreender melhor suas próprias emoções e as do outro, desenvolvem naturalmente habilidades sociais de extrema importância, como a empatia. Conforme crescem e amadurecem cognitivamente, as formas de amizade ficam mais profundas e estáveis, elas começam a considerar a opinião dos outros e aprendem a resolver conflitos.
Entre nove e onze anos de idade, a criança começa progressivamente a mudar o foco da atenção, para de olhar tanto para si e passa a compreender que as demais pessoas pensam, sentem e agem de formas diferentes. Ela repara no outro e se compara a ele.
“A autoestima está intrinsecamente associada com a autopercepção dos recursos que possui para realizar atividades e enfrentar desafios, com o feedback dado pelos seus amigos ou pessoas próximas. Nessa fase, os amigos já se tornam tão importantes quanto a família, assim como com a identificação que possui com pais, professores ou outros adultos com os quais convive”, salienta a orientadora.
Saúde social na adolescência e vida adulta
Entre os adolescentes, a convivência com os pares é tida como prioridade, e o tempo dedicado aos amigos costuma ser maior do que em qualquer outro momento da vida. Eles tendem a se afastar temporariamente dos pais e se aproximar dos amigos, com quem se sentem compreendidos e acompanhados nesta fase de descoberta de seus desejos e limites.
Mas, de acordo com Juliana, não é somente na infância e adolescência que a saúde social se mostra tão importante, mas na vida adulta também. Ela conta que, em 1937, na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, teve início o maior projeto sobre saúde humana. “Ele envolve milhares de voluntários com idades e perfis diferentes, que têm suas vidas analisadas, além de realizarem exames periódicos e entrevistas. A conclusão é que os amigos são o principal indicador de bem-estar na vida de uma pessoa. Inclusive, indivíduos com mais de 70 anos possuem 22% mais chance de chegar aos 80 anos se mantiveram fortes e ativos os vínculos de amizade.”
Ela também comenta sobre um estudo feito na Universidade de Duke (EUA), que indica ser quatro o número-chave -- pessoas com menos de quatro amigos apresentam um risco dobrado para doenças cardíacas. “Esse achado reforça a conhecida premissa de que a qualidade é mais importante do que a quantidade.”
A orientadora cita, ainda, Kasley Killam, pesquisadora e autora do livro “The art and science of connection: why social health is the missing key to living longer, healthier and happier” (“A arte e a ciência da conexão: porque saúde social é o elo que falta para viver mais, com saúde e felicidade”). A obra aponta que indivíduos com um forte sentimento de pertencimento são 2,6 vezes mais propensos a ter boa ou excelente saúde.
Benefícios pessoais e sociais
Independentemente da idade, os benefícios da saúde social são inúmeros. Juliana elenca alguns:
- melhoria na saúde mental;
- redução dos sintomas de depressão e ansiedade;
- aumento da longevidade;
- diminuição dos níveis de estresse;
- maior resiliência;
- fortalecimento do sistema imunológico.
“Uma rotina que permite espaço para a interação com o outro é de grande valia e essencial para o nosso bem-estar. E, dessa forma, o coletivo passa a ser permeado por uma boa comunicação, pela empatia entre os pares e pela compaixão nas relações, o que, consequentemente, promove um bem-estar coletivo. Assim, não é só uma pessoa a se beneficiar, mas toda a comunidade em seu entorno.”
Riscos para a saúde social e meios de promovê-la
No entanto, a saúde social das crianças e jovens nos dias de hoje gera preocupação. Segundo Juliana, isso acontece devido aos impactos do período pandêmico e, também, ao cenário de hiperconectividade – o mundo que se apresenta cada vez mais conectado, mas, paradoxalmente, com indivíduos cada vez mais solitários. “Na sociedade moderna, com o exponencial aumento das conexões on-line, uso de celulares e interação via redes sociais, os desafios para manter uma saúde social adequada são grandes, visto a redução das interações face a face”, argumenta.
Ela descreve alguns sinais de alerta que crianças e adolescentes podem demonstrar e aos quais famílias e escolas devem se atentar:
- resistência em conversar;
- invalidação do que outras pessoas dizem;
- dificuldade para desenvolver e manter vínculos com outras pessoas;
- isolamento social;
- pouca importância ou preocupação com o outro;
- crença de que não precisa de nenhuma outra pessoa para se sentir bem.
Entre as iniciativas que podem ajudar a fortalecer as habilidades sociais e o senso de pertencimento dos jovens estão o uso controlado dos dispositivos digitais, o incentivo a brincadeiras e jogos em locais públicos, a participação em atividades comunitárias e o envolvimento em grupos ou clubes sociais.
“Reconhecer e valorizar a importância da saúde social é o primeiro passo para criar crianças e adolescentes mais sociáveis, comunidades mais fortes e inclusivas, onde o suporte mútuo e a compreensão prevalecem”, conclui Juliana.
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