A importância da abordagem inter e transdisciplinar na escola

Atualmente, no contexto educacional, muito tem se falado sobre multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Mas, muitas vezes, esses termos não são totalmente compreendidos em suas particularidades e há até uma certa confusão entre eles. 

Caio Mendes, professor de História e coordenador de projetos do Colégio Rio Branco, conta que as áreas da Pedagogia que estudam currículos e metodologias de ensino também desenvolvem um caloroso debate sobre tais conceitos já há muito tempo, especialmente sobre como eles podem ser desenvolvidos em sala de aula

Ele diz que o consenso sobre essas nomenclaturas, que tem a concordância da maioria dos educadores, aponta para as seguintes definições:

 

  • Multidisciplinaridade

Corresponde à maneira tradicional de trabalhar diferentes disciplinas de maneira simultânea. Fazendo um paralelo com a área médica, quando um paciente é atendido por uma equipe multidisciplinar – por exemplo, médicos, enfermeiros, nutricionistas e fisioterapeutas -- isso significa que haverá diferentes especialistas para tratar de um mesmo indivíduo ou problema. 

“A grande questão aqui é que uma abordagem multidisciplinar não garante que haverá integração entre as áreas. Sendo assim, os especialistas podem trabalhar de maneira simultânea, mas isolada”, ressalta. 

 

  • Interdisciplinaridade

Diz respeito justamente à integração entre as diferentes disciplinas. Nesse caso, as diferentes áreas do conhecimento se articulam para um fim em comum, buscando superar o caráter fragmentado e compartimentado do currículo tradicional. 

“É por isso que os educadores geralmente optam pelo desenvolvimento de projetos interdisciplinares. Propor aos estudantes que compreendam um fenômeno ou solucionem um problema exige que eles integrem diferentes teorias, métodos e conceitos, entendendo -- e experimentando -- a aprendizagem como algo a ser construído e compartilhado”, destaca o educador.

 

  • Transdisciplinaridade

Já a transdisciplinaridade vai além e propõe a eliminação das fronteiras entre as disciplinas, não podendo (ou não sendo necessário) mais separá-las. De acordo com o Glossário de Terminologia Curricular da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), tal nível de integração prevê que os diferentes campos do conhecimento -- e seus representantes, os educadores -- organizem "o ensino e a aprendizagem em torno da construção do significado no contexto de temas ou problemas do mundo real". 

 

Organização curricular e escala de complexidade

Segundo Caio, pensando na possibilidade de organização do currículo em uma escala de complexidade, pode-se dizer que ela iria do multidisciplinar -- o menos complexo e mais comumente presente nas escolas, sendo, por vezes, entendido como "tradicional" -- ao transdisciplinar. Este último é mais sofisticado e exige maior esforço de planejamento e articulação dos educadores e da gestão escolar. 

Como os instrumentos de avaliação internos e os exames externos impõem uma série de limitações e, portanto, escolhas às escolas, ele considera que a transdisciplinaridade pode ser implementada mais facilmente nos contextos da educação infantil e do ensino superior. “Pois são momentos em que o olhar sobre ensino e aprendizagem dos estudantes pode ser mais livre e personalizado”.

Na educação básica, com a tradicional estrutura de áreas do conhecimento presente nos currículos dos ensinos fundamental e médio, ele acredita que o mais comum é a convivência de tais abordagens. 

Exemplos de abordagem

Para facilitar o entendimento, Caio dá como exemplo a rotina de um estudante que aprende sobre diferentes assuntos ao mesmo tempo e separadamente. “Mudam a aula, o professor, a disciplina e, portanto, o assunto a ser aprendido. O mesmo estudante pode aprender sobre funções em Matemática, sistema circulatório do corpo humano em Ciências e poesia medieval nas aulas de Literatura.”

Em uma abordagem interdisciplinar, ele explica que os professores poderiam propor um projeto chamado "As batidas do coração", em que os estudantes aprenderiam como os batimentos cardíacos podem ser expressos em linguagem matemática, ao mesmo tempo em que estudariam o funcionamento do sistema circulatório e sua relação com as emoções. Tal investigação poderia ainda ser complementada pelo estudo da menção à palavra "coração" nos poemas de amor. “Esses assuntos aprendidos separadamente poderiam se juntar para a elaboração de um produto final. Ou, ainda, cada grupo poderia ficar responsável por apresentar um aspecto do tema”, exemplifica.

O professor reforça que, se as diferentes visões de um assunto se complementam, mas não necessariamente se integram, ou seja, se os limites das disciplinas ainda estão claros, trabalha-se no campo da interdisciplinaridade. Mas se a investigação proposta ultrapassa os limites dos campos do conhecimento, de maneira que já não há mais a necessidade de compartimentá-lo em "caixas separadas", entra-se no campo da transdisciplinaridade.

Inter e transdisciplinaridade no Rio Branco

No Colégio Rio Branco, há muitas oportunidades garantidas no currículo para exercitar a inter e a transdisciplinaridade. Uma delas é o componente “Cotidiano em Questão”, que já nasce na perspectiva interdisciplinar na medida em que os estudantes analisam um mesmo assunto a partir de três pontos de vista distintos: ciências da natureza, ciências humanas e cultura maker. 

Outras propostas ocorrem no âmbito do Módulo Interdisciplinar, em que um mesmo tema orienta discussões específicas dentro de um componente ao longo de um ciclo e, em um momento de trabalho colaborativo, os estudantes realizam atividades em que tais saberes se complementam e se integram. Uma lógica semelhante direciona a estrutura dos componentes dos Itinerários Formativos Integrados em que há diferentes frentes que se articulam.

De acordo com Caio, o Ciclo Síntese (Ciclo 4), último período do ano, é o espaço de maior oportunidade para trabalhos dessa natureza. É um momento do ano letivo em que os tempos e espaços são reorganizados para que os estudantes aprendam com base no desenvolvimento de projetos. Além disso, valoriza-se o desenvolvimento de habilidades, incluindo as emocionais, o trabalho colaborativo, o pensamento crítico, o impacto na comunidade e o compartilhamento de ideias. 

“Isso significa que as fronteiras entre as disciplinas se diluem e eles podem mobilizar teorias, conceitos e metodologias para solucionar problemas do cotidiano, do mundo como ele realmente se apresenta”, finaliza o educador. 

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