
Na tentativa de proteger ou orientar as crianças ou os adolescentes, pais e mães podem criar barreiras ao desenvolvimento saudável e à construção da independência
Entre as tarefas mais desafiadoras da nossa vida está a de educar uma criança. Isso envolve, entre outros fatores, um olhar crítico para a própria criação, saber equilibrar amor e limites e ter abertura para ensinar e aprender ao mesmo tempo. E, ainda, a responsabilidade de formar uma pessoa com autonomia em um mundo em constante transformação.
“Pais e mães sempre querem acertar, mas não há manual. Quem não quer o melhor para o filho ou filha?”, aponta Mariana Abbate, orientadora educacional de apoio à aprendizagem do Colégio Rio Branco. “Mas, no impulso de proteger ou orientar, pais e mães acabam se atrapalhando. E, sem perceber, são criadas barreiras, ao invés de se construir pontes”, completa.
Como fugir de algumas ciladas na educação das crianças
Mariana lista cinco armadilhas comuns que os pais precisam evitar na criação dos filhos para promover um desenvolvimento saudável. “Todas elas costumam ser feitas com ‘boa intenção’, mas podem sabotar o desenvolvimento das crianças”, alerta. Ela também indica como fugir de cada uma. Confira:
- Superproteger achando que está amando
A orientadora diz que quem ama quer proteger, mas que amor de verdade também prepara para a vida. “Quando a gente resolve tudo pelos filhos e age com superproteção, a gente passa sem querer a mensagem de que eles não são capazes.”
Como fugir disso? “Dê apoio, sim. Mas deixe viver. Deixe errar, tentar, levantar. Ajude a pensar, não a se livrar do problema. O mundo não vai ser gentil o tempo todo. E quem nunca lidou com um ‘não’, não aprende a crescer”, destaca.
- Comparar achando que vai motivar
Quem já ouviu a frase clássica ‘Por que você não é como fulano?’ sabe como dói. Segundo Mariana, “a comparação não inspira; ela humilha. Gera insegurança e uma sensação constante de não ser suficiente”.
Como fugir disso? “Olhe para seu filho e sua filha com olhos limpos. Valorize o caminho dele ou dela. O progresso, o esforço, o tempo necessário. É nele que mora a força, não no espelho do outro”, sugere a orientadora educacional.
- Confundir autoridade com autoritarismo
Ter pulso firme é importante. Mas gritar, punir sem explicar ou impor tudo no medo não educa, mas sim afasta. “O adolescente ou a criança obedece, mas por fora. Por dentro, se fecha”, observa Mariana.
Como fugir disso? “Fale firme, mas com respeito. Dê limites claros, mas com afeto. E explique os porquês. Educar é construir sentido junto, não somente impor.”
- Minimizar o que o outro sente
Mariana explica que, frente aos sentimentos da criança, dizer que aquilo é drama, frescura ou que ‘na minha época era pior’ não ensina a ser forte. “Ensina a se calar. E o silêncio de um filho ou uma filha pode esconder muito mais do que você imagina.”
Como fugir disso? “Escute. Valide. Às vezes, tudo o que um adolescente ou uma criança precisa é saber que pode sentir algo sem ser julgado. Depois que o coração se acalma, a conversa acontece”, aconselha.
- Projetar sonhos que não são da criança
Não é incomum pais e mães desejarem que o filho ou a filha realizem tudo o que eles não conseguiram fazer. “Parece cuidado, mas se transforma em pressão. Vira um peso enorme que ninguém merece carregar”, salienta Mariana.
Como fugir disso? “Ajude seu filho a descobrir quem ele é -- não quem você queria que ele fosse. Seu papel não é dirigir a vida dele, mas iluminar o caminho enquanto ele descobre por onde quer ir.”
Por fim, Mariana ressalta que criar um filho emocionalmente saudável é mais importante do que criar um filho “perfeito”. “A gente não está criando máquinas. Nós estamos criando gente. Gente que sente, erra, ama, aprende. E que um dia vai precisar caminhar sozinho — com segurança, respeito por si e capacidade de lidar com a vida como ela é.
De acordo com ela, se essas reflexões tocarem os pais de alguma forma, talvez seja a hora de eles reverem -- com carinho -- alguns hábitos. “Sempre dá tempo de mudar. Sempre.”
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