Terrible two: como lidar com a "adolescência dos bebês”

Apesar de desafiadora, essa fase é crucial para o desenvolvimento infantil, promovendo aprendizado, autoconhecimento e a descoberta do mundo

O período conhecido como "terrible two", também chamado de adolescência dos bebês, é uma fase muito importante do desenvolvimento infantil, mas, muitas vezes, desafiadora para os pais.  

Rose Sertório, orientadora educacional da Educação Infantil do Colégio Rio Branco, explica as principais características desse período e dá orientações sobre como os pais devem agir diante das eventuais crises de “rebeldia” para que possam enfrentar essa fase com mais paciência e segurança.

O que é o "terrible two" 

O "terrible two" é uma fase do desenvolvimento infantil que ocorre entre 1 e 3 anos de idade, com o auge por volta dos 2 anos -- daí o nome que, em tradução livre, significa “terrível dois”. Nessa fase, a criança começa a se perceber como um indivíduo com desejos e vontades próprias. 

A orientadora diz que nessa idade a criança ainda não desenvolveu completamente a capacidade de comunicação e de lidar com seus sentimentos e pode se manifestar por meio de birras, crises intensas de raiva e frustração. Essas situações, muitas vezes, deixam os adultos sem saber como acalmar e compreender a criança. 

Segundo ela, a criança, que antes se mostrava carinhosa e tranquila, descobre e começa a expressar a palavra "não", “eu quero”, “é meu”, além de desenvolver hábitos desafiadores, como se jogar no chão ou fazer birras intensas. “Elas podem apresentar descontrole emocional, resistência à autoridade, irritação e frustração aumentadas. Mesmo sem entender as solicitações, costumam responder com um ‘não’, testando os limites dos adultos.” 

Fase de descobertas

Rose detalha que, em plena fase de descoberta do mundo, a criança demonstra muita energia e pode ser agitada, querendo explorar todos os lugares, como gavetas e objetos que não deveria. Há o desejo de fazer tudo sozinha, gerando frustração quando os adultos intervêm. “As emoções oscilam, e ela pode reagir de forma impulsiva e nervosa quando não consegue encaixar um brinquedo, por exemplo.”

De acordo com ela, a criança começa a se perceber também como um indivíduo com desejos e opiniões, mas ainda não controla suas emoções. A forma de expressão se dá por meio de choro, esperneio, choramingos e até gritos. “A tranquilidade anterior dá lugar a um comportamento desafiador, uma explosão de rebeldia.”

No entanto, a orientadora ressalta que, apesar dos desafios, essa fase é especial. “A criança manifesta seus desejos e vontades, demonstrando independência, apesar de mal falar e andar. Os pais se deparam com um bebê que repentinamente apresenta novos comportamentos.” 

Marcos do desenvolvimento aos 2 anos 

O período dos 2 anos é marcado por avanços significativos, tanto emocionais quanto motores e cognitivos. Rose destaca alguns dos principais aspectos desse desenvolvimento:

  • Desenvolvimento emocional: a criança experimenta uma gama maior de emoções, como frustração, raiva e ansiedade, com dificuldade para regulá-las, levando a birras. Essa é uma oportunidade para ensinar sobre emoções.
  • Independência: com o controle motor, a criança explora mais o ambiente, manifestando vontades e resistências. É importante que o adulto monitore suas aventuras.
  • Desenvolvimento da fala e da linguagem: o vocabulário se expande, com frases simples entre 2 e 3 anos, mas a comunicação clara ainda é um desafio, podendo gerar frustração.
  • Consciência da própria identidade: ela começa a se reconhecer como indivíduo separado dos pais, testando limites e afirmando a independência.
  • Aprendizado por imitação: começa a imitar comportamentos de adultos e de outras crianças. Essa é uma forma importante de aprendizado.
  • Desenvolvimento motor: a criança fica mais ágil, explorando o mundo, correndo, pulando, subindo escadas e empilhando objetos.

Rose salienta que essa fase é fundamental para o desenvolvimento da individualidade, da autonomia e da capacidade de se relacionar com o mundo. “A criança questiona o que lhe é imposto, mas quer aprender, precisando de adultos acolhedores, firmes, com boa escuta e que proporcionem afeto, amor e segurança.”

Como os pais podem estimular o desenvolvimento infantil

As famílias devem oferecer oportunidades para a criança explorar o mundo em um ambiente seguro, removendo objetos perigosos e permitindo que ela corra, pule e se movimente livremente. Brincadeiras e brinquedos que estimulam a criatividade e habilidades motoras, como blocos e brinquedos musicais, são recomendados.

Incentivar a independência da criança, como guardar brinquedos, tentar se vestir e se alimentar sozinha, desenvolve a autoestima. Permitir que ela expresse suas opiniões, oferecendo escolhas simples, também é fundamental”, aconselha a orientadora. Além disso, é importante estabelecer um diálogo, usando comunicação simples e transparente. “Mesmo que a criança se manifeste por choro, ela entende o que acontece”. 

Como evitar ou amenizar as birras

Rose indica algumas estratégias para esses momentos:

 

  • Rotina e preparo

 

Horários regulares para alimentação, sono e atividades trazem previsibilidade e segurança para a criança, reduzindo o estresse e a ansiedade. Leve sempre lanches e brinquedos na mochila para evitar que a criança fique com fome ou entediada.

 

  • Comunicação emocional

 

Pergunte à criança como ela está se sentindo e ajude-a a nomear suas emoções. Brincadeiras e desenhos podem ser formas eficazes de expressão. Quando a criança estiver calma, converse sobre os sentimentos como raiva, tristeza e alegria.

 

  • Antecipação e preparo

 

Comunique-se de forma clara e assertiva com a criança, explicando o que vai acontecer e quais são as expectativas. Se forem ao mercado, por exemplo, explique previamente que não poderão comprar brinquedos. Isso ajuda a estabelecer limites e evitar frustrações.

Como agir durante uma crise

Se a birra acontecer, a especialista recomenda que os pais mantenham a calma. "Respire fundo e lembre-se de que a birra é uma fase normal do desenvolvimento. Evite gritar ou punir a criança para não piorar a situação".

Além disso, validar os sentimentos sem ceder às exigências é importante. "Diga: 'Eu sei que você está chateado porque não podemos comprar o brinquedo agora', mas mantenha o limite estabelecido", exemplifica.

Ela orienta os pais a oferecer alternativas que sejam viáveis, como a opção de brincar com outro brinquedo ou desviar a atenção da criança mostrando um livro interessante ou uma nova brincadeira divertida. “Se necessário, leve a criança para um local calmo e seguro até que ela se acalme”, sugere.

Ela explica que após passar o momento de birra é importante que os pais conversem com os filhos. "Quando estiver calma, ajude-a a identificar e entender suas emoções, explicando porque aquele comportamento não foi adequado, sempre reforçando os comportamentos positivos."   

Por fim, a orientadora educacional aconselha os pais sempre lembrarem que as birras são uma forma de a criança expressar suas emoções e buscar independência. “A paciência, o diálogo e o amor são as melhores ferramentas para lidar com essa fase”, conclui.

 

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