Relato de uma professora na pandemia

Afirmar que a educação tem sido fortemente impactada com a suspensão das aulas presenciais é uma obviedade. Todos reconhecemos a luta diária de coordenadores, professores, alunos e pais ou responsáveis na tentativa de superar os atuais desafios no processo de ensino-aprendizagem. Em meio a tantos impasses, colocar em prática as teorias da educação parece impossível nas aulas virtuais de boa parte dos estudantes brasileiros. A relação dialógica entre educador e educandos, tão valorizada por Freire, e a necessidade de mobilizar nossos alunos para uma aprendizagem mais efetiva e significativa, como idealiza Bernard Charlot, parecem um sonho utópico diante da desigualdade de nosso país, onde o acesso à internet é um privilégio.

Nesse sentido, instituições particulares que, há algum tempo, investem no uso das tecnologias estão conseguindo se adaptar às atuais demandas. Como professora de Literatura, reconheço os privilégios que eu e meus alunos usufruímos. Manter a qualidade das aulas tem sido nossa maior preocupação e isso só é possível graças ao fácil acesso à rede, realidade de praticamente todos dessa comunidade escolar. Assim como as aulas presenciais, nossas aulas a distância continuam reconhecendo a necessidade de construir desafios que levem ao desenvolvimento das competências necessárias para a formação de jovens protagonistas. Para tanto, atualmente, minha metodologia é pautada em roteiros de estudos, os quais já são conhecidos de nossos alunos, expostos à aprendizagem por projetos ao longo do Ciclo 4.

Os roteiros se mostram relevantes na construção da autonomia, a meu ver, um dos pilares para a educação, acompanhada pela responsabilidade e pelo respeito. Semanalmente, compartilho, em nosso habitual Classroom (recurso Google para a área de educação), o roteiro detalhado com orientações para realização da aula, a qual, separada em diferentes momentos, é dividida em: conceito, interação e produção. Na fase do conceito, na contramão da tradicional aula expositiva, os educandos têm contato com pequenos vídeos e leituras sobre o novo conhecimento a ser desenvolvido. Posteriormente, expomos, em forma de debate, as compreensões individuais no intuito de construir uma compreensão coletiva. Nesse momento, nos valemos do Google Meet, serviço de videoconferência ao vivo essencial para a humanização em tempos de isolamento social. Por fim, para colocar em prática a aprendizagem e mobilizar os alunos, procuro oferecer a eles atividades diversificadas, com músicas e jogos interativos, por exemplo.

Como parte da avaliação, almejei um projeto educativo que priorizasse o desenvolvimento dos alunos a partir de um processo de assimilação ativa do conhecimento. Dessa forma, orientei os educandos a elaborarem mapas mentais (diagrama usado para relacionar conteúdos e ideias), os quais foram utilizados para avaliar a compreensão de todo o aprendizado promovido no Ciclo 1. Ao todo, foram cinco grandes temas, a saber: definição da literatura, elementos da narrativa, gênero lírico, gênero épico e gênero dramático. Os trabalhos foram individuais e os alunos foram separados nesses eixos temáticos. Curiosamente, na contramão do estereótipo atribuído à geração Z, os educandos optaram pelo tradicional trio: papel, lápis e caneta. Talvez, assim como todos nós imersos no atual home-office, também estejam cansados de passar horas com os olhos grudados na tela de um computador. Com muito entusiasmo, observei a mobilização expressiva dos alunos diante dessa atividade de ensino. O resultado das produções revelou o engajamento de muitos, como apresento ao fim do relato.

Por fim, reconheço que tive o privilégio de estar um pouco mais preparada teórica e tecnologicamente para essa nova fase educacional junto a meus alunos, conseguindo mobilizá-los de forma remota com atividades diversificadas e interativas para superar tempos tão críticos. Reconheço também que minha privilegiada realidade está muito distante da grande massa de professores de nosso país, os quais não têm acesso a ferramentas digitais para aprimorar a habilidade de ensinar e desenvolver competências a distância, assim como seus alunos. Sem dúvidas, a pandemia nos deixa como lição a necessidade de maiores investimentos na Educação Básica para aprimorar novas abordagens metodológicas. Por ora, espero ter contribuído, por meio de meu relato, com a sugestão dos roteiros e mapas mentais, os quais podem ser adaptados e colocados em prática por professores e alunos tanto de instituições privadas quanto públicas, na sonhada volta às aulas.

Referências:
CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Trad. Bruno Magne.
Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1996, p. 57.

 


Renata Carvalho, professora de Literatura.

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